To piss something

terça-feira, 20 de agosto de 2019 § 0




Queriam-se,
mas havia
entre eles
o abismo
cada dia mais profundo
de desilusões passadas,
de feridas ainda abertas
e de cicatrizes maculosas.
Queriam-se,
mas se temiam
porque conheciam
tanto quanto sabiam
tudo de si mesmos
e, mais ainda,
do que lhes dividia
as almas
e
o querer
do ser
e a vida, bruta e indelicada,
da beleza cálida
dos romances
pueris
que conheciam
no mundo
esquecido de suas ideias.
Ainda assim, persistem. 


Maceió, 20 de agosto de 2019

Rabisco unútil

quinta-feira, 23 de outubro de 2014 § 0

     É curioso como inconscientemente, e apesar das evidências quase provarem o contrário, lutamos pela nossa preservação. Deve ser por isso que dizem que a mente humana tem um potencial criativo infinito. Somos capazes de fazer ouro virar merda e merda diamante. Tudo graças ao medo da morte, ao medo da loucura e à repulsão da dor.

Divagações sobre porra nenhuma

quarta-feira, 20 de novembro de 2013 § 0

     O amor, como a maioria das pessoas o concebe, não passa de um delírio, de uma racionalização banal para amenizar a dor que nos impõe a existência. Amar não significa mais do que sustentar-se em algo para impedir um tombo iminente. Amamos o que nos é útil, e, mais do que tudo, amamos a nós mesmos. Quando alguém diz amar outra pessoa está na verdade dizendo que ama o conforto de tê-la por perto para levar embora seus medos, para sustentar o peso de seu mundo e para manter distantes antigos fantasmas. Ao ver dois amantes, a impressão que tenho é de estar encarando duas ruínas cujos destroços não despencam porque, de algum modo misterioso, um apara os restos do outro.

Fragmentos de uma alma sulista: Um conto do sul

domingo, 16 de dezembro de 2012 § 0

     No começo, eu não compreendia: para mim, era apenas o canto de um pássaro. No entanto, dia após dia, aquela cantiga foi tomando forma em minha mente. Primeiro imprimiu-me a sensação de estar ouvindo a correnteza de um rio durante uma noite silenciosa, depois, o soprar do vento por uma janela aberta e, por fim, uma voz dolorida que contava a história de um pássaro aprisionado em uma gaiola. Há dois meses ele canta incessantemente. Está morto. Mas ainda ouço-o cantar.

Fragmento #1

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012 § 0

"...Quando acuados por nossa sobriedade, nossos pensamentos sentem-se intimidados; evitamos o desconhecido, evitamos nos afastar demais de nossas zonas de conforto temendo não saber o caminho de volta. A realidade nos conflui para a mediocridade. Para o temor das consequências dos pensamentos que circundam nossas mentes. Tornamo-nos meros cães domesticados pelo medo de nossas próprias palavras." 

Nota: Ando escrevendo um livro – talvez, daqui a dez anos eu o termine; o fragmento acima pertence a ele.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012 § 0

Comment t'appelles-tu ?

sexta-feira, 23 de novembro de 2012 § 0

Luz ausente, imperceptível escuridão,
que rompe em silêncio o clarão
e descansa no peito das gentes de alma invisível.

Que homem ousaria, em vão,
resistir à correnteza nimiamente inócua
– e indelével – 
que lhe cega os olhos
e oferece-me abrigo?

Sou como as nuvens
que ferem a pedra inatingível;
que, por entre o sonho indivisível,
corrompem o íntimo dos homens.

Dizem eles:
Insistir em viver é ilícito,
desistir é corromper-se.

Arapiraca, 20 de novembro de 2012.

Chove Sobre A Cidade

segunda-feira, 1 de outubro de 2012 § 0

Consolam-se os anjos:
– Anda doente este mundo.
Resta-nos apenas o infinito,
as sombras,
esta chuva que cai, já fraca, 
sobre a cidade.
Repreende-nos a razão:
– Compreendes o que dizes?!
Concedes que há mesmo algum sentido
nessa tua imatura 
saturação de pensamentos
que  não consolam
nem destroem?
Cala-te, é o meu conselho.
Deixa em repouso as palavras
se a elas não consegues dar ordem
e sentido.
Insistem os sonhos:
– O que há de verdadeiro no mundo
que não possa ser superado pela chuva
dos tempos,
pelas memórias irreais
que varrem de nossas mentes
as mágoas imanentes
das chuvas das cidades?
O homem cura-se por seus devaneios,
por sua confusão,
pelas palavras desarranjadas
e feridas
que se abrigam em suas fendas.
É assim, e não de outro modo,
que as palavras fielmente germinam seus
sentidos
ocultos e
impiedosamente reais;
seus mais puros 
e indolores
sentimentos.
As palavras só têm sentido
quando brotam do próprio homem.
Quando dele – e a ele – se alimentam.
– Silêncio.

Arapiraca, 01 de outubro de 2012.

O significado dos sonhos

domingo, 16 de setembro de 2012 § 1

     Os sonhos não precisam da realidade para existirem. Eles possuem uma realidade imanente. Uma realidade que não aceita imposições. Os bons artistas sabem disso. Ao retratarem seus sonhos, por exemplo, não objetivam torná-los reais, ou adequá-los à nossa realidade limitada; sabem que é tarefa impossível. Engana-se quem pensa que um quadro ou um poema onírico é uma mera representação de um sonho. Sendo os sonhos incompatíveis com a realidade a que somos subordinados, o que fica, na verdade, é apenas o eco de suas existências, de suas manifestações. O eco distorcido de nossas expectativas inconscientes; de nossos “eus” mais íntimos. Retratar um sonho é algo muito mais profundo do que apenas tentar representá-lo. É uma tentativa de dar voz às nossas almas. Os sonhos são um retrato absoluto de nossas almas. 

Portugal Revisitado

quarta-feira, 12 de setembro de 2012 § 0

Mário Cesariny é o nome de minha última grande descoberta.

Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos    e na boca.

Em "Pena Capital", Mário Cesariny, 1957.