Ontem encontrei a morte. Eu estava sentando em um café, fazendo o que as pessoas têm o hábito de fazerem em cafés. Era um café ruim, então levei mais tempo que o normal para terminar o meu. Ela era atraente em suas formas, atraente de um modo bastante confuso; ela não tinha rosto, ou algo que comumente possa ser chamado de rosto, mas eu podia ver seus contornos e, principalmente, a forma de seus lábios e o tom de seus cabelos.
– Olá. Foi o que ela disse.
– Olá. Foi o que respondi.
– Você é um jovem bastante atraente. Ela disse logo em seguida.
Bem, esse é um elogio típico de pessoas estúpidas. Tamanha foi a minha decepção ao saber que mesmo a morte é uma estúpida. Decepção maior ainda foi reparar em sua frágil eloquência.
– Não posso dizer o mesmo de você. Respondi-lhe com minha viva inclinação à ironia, claro que o disse demonstrando também um pouco de educação, além do mais era da morte que eu estava zombando. Tenho a sensação de que ela percebeu isso.
– Você sabe o motivo de eu estar aqui, não sabe?
– Suponho que sim, mas me sinto bem demais para ter certeza.
– Você é um sujeito bastante engraçado, bem que me disseram. Essa afirmação me pegou de surpresa. Fiquei imaginando quem poderia ter falado de mim para a morte; a resposta não veio.
– Obrigado. Respondi com um sorriso que demonstrava minha confusão.
– A verdade, a razão, ou qualquer outro termo utilizado por vocês para exprimir a real significância de um evento, é que você tem chamado muito por mim nesses últimos segundos. Por um instante julguei sua noção de tempo, definitivamente eu nem sequer havia pensado nela, pra ser bastante exato, não penso nela há 10 anos. Bem, observando sua situação, acho que não posso culpá-la pela confusão. Quando você vive desde o princípio dos tempos, o que é uma grande ironia neste caso; é um pouco complicado adaptar sua percepção de tempo a percepção de tempo de um humano, de um humano com 21 anos. Como é o meu caso.
– Segundos? Indaguei
– Segundos, dias, horas, anos, milênios. Não sou muito boa com essas ordenações e definições relativas ao tempo elaboradas por vocês homens. Para mim o tempo é algo contínuo e incalculável, seu fluxo é algo bastante minúsculo para minha capacidade perceptiva. Bem, essa afirmação me levou a certeza das minhas duas suposições anteriores: De que ela estava confundindo os termos e, claro, que ela era uma estúpida. Acrescentei também uma tendência à grandeza. Enfim algo em comum.
– Você cheira bem! Observei; tentando, na verdade, esconder meu desapontamento. Mas eu não estava mentindo. Ela realmente tinha um cheiro agradável, um cheiro que sugeria um gosto, um gosto de algo que eu poderia comer. Por um rápido instante algo erótico passou em minha mente assim que pensei no termo comer. E, inconscientemente, um sorriso formou-se em meus lábios. Mas eu estava bastante perplexo, e, além do mais, não transo com estranhas, não sem pagar por isso. Se bem que no fim das contas ela não era uma estranha; nós, e aqui me refiro a todos os seres dotados de vida, e a morte somos velhos conhecidos. Pensei.
– É o seu cheiro. Disse ela. E, pela primeira vez, fui surpreendido por uma manifestação de meu narcisismo. E também pelo fato da morte ter o mesmo cheiro que eu.
– Por que o meu cheiro?
– Porque sempre é o cheiro.
Fiquei confuso com a resposta. Confuso pela quantidade de significados que ela continha, mas não insisti em minha pergunta. Percebi pelo sorriso em sua boca que a ambiguidade da resposta foi um modo educado de não responder minha pergunta. E pensei: Bem, ainda há salvação.
Um homem conduzia uma moto furiosamente. O sinal estava alaranjado e, ao que percebi, ele pretendia ganhar tempo ultrapassando-o mesmo assim. A ironia é que outro sujeito que vinha dirigindo também uma motocicleta na rua perpendicular não queria esperar o sinal vermelho abrir. E ambos se encontraram de um modo bastante desastroso e até engraçado.
– Bingo! Ela gritou com uma voz que parecia uma tempestade, algo que fez com que meu coração batesse fora de seu ritmo natural.
– Dê-me licença, como você vê, tenho trabalho a fazer. Mas, não saia daí, eu volto em alguns instantes. Ela disse intimidadora. E percebi alguma empolgação em sua voz, contudo, também percebi um pouco de compaixão, ou julguei perceber; porque eu estava a uns vinte metros do local do acidente, e mesmo assim eu ouvia os gritos de ambos os homens, e havia dor em seus sons. E, sabendo que a morte teria trabalho a fazer, julguei que era algo sério.
– Um café sem açúcar, por favor! Ouvi alguém gritar. E voltei minha atenção para saber quem fazia tal pedido em meio a um acidente. Era um homem gordo vestindo um terno cinza com listras finas e escuras e usando botas country, algo bastante incomum por estas bandas. Quando olhei novamente para a esquina não havia mais acidente. Apenas o trânsito seguindo seu rotineiro movimento. Sorri confuso, pela segunda vez naquele dia. A morte nunca voltou.
