Suspens

terça-feira, 10 de abril de 2012 § 0

 Poucas coisas têm me causado alguma admiração ultimamente. Não digo isso com indiferença, ou tentando me passar por algum indiferente, não sou dotado de tanta disposição para tal. Insisto nessa insolência, simplesmente, porque a grande maioria dos eventos que se prestam a tentar alterar a adorável monotonia de meus dias parecem-me tão eficientes quanto às tentativas de minha mãe em fazer-me acordar cedo. No entanto, admira-me, talvez, a persistência de que esses eventos são dotados. Mesmo em face de minhas mais austeras críticas, vez ou outra, me apresentam, com uma teimosia quase religiosa, a seus planos, a principio, até interessantes; mas após um pequeno intervalo da graciosa cantiga dos bons e velhos tique-taques do relógio, fazem manifestar-se em minha mente a convicção de que tudo aquilo é menos emocionante e atrativo do que um velho quadro da parede aqui da sala, representando um rapazola gordo, vestindo em um macacão marrom, a empurrar, estaticamente, uma carroça cheia de tijolos por um bosque no outono. Talvez a subjetividade de alguns detalhes deste quadro me cause mais admiração que as sofisticadas e monótonas ideias de meu inconsciente para alterar meu saudoso e previsível cotidiano. Confesso, no entanto, que minha alma parece estar cativada por uma esperança... ou seria um pressentimento? de que, brevemente, alguma emoção baterá em minha porta com a pressa de um trem de carga e me acertará, bem na face, um soco com força suficiente para que eu caia em um sono prolongado e encontre, quem sabe, em algum dos bares de minha caixa-preta, os motivos de tanta apatia para com meus preciosos dias. Bem, tenho mantido meus dedos cruzados... não sei quanto tempo eles resistirão... presumo que tempo suficiente para eu terminar esta postagem, que será, exatamente, agora. 

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