As horas correm furiosas, todavia, ideia alguma salta para dentro de minha cachola. A página, ainda em branco, olha-me com seu habitual ar de indiferença assumindo a forma de um horizonte deforme. Talvez até valesse a pena contemplá-lo, mas não há nele sentido algum; digo, não há nele surpresa alguma. Mera projeção. Meu próprio vazio, que frustrado em função de meu pouco caso com sua presença, incorpora os mais confusos elementos de meu inconsciente e manifesta-se na forma de traços distorcidos e sem sentido. E embora até aparente, não há nada de interessante nisso. Talvez, um evento, não exatamente interessante, mas curioso, é que quando, em razão de bastante esforço, surge-me uma ideia qualquer, ele se multiplica rapidamente em outra, e esta outra em outras; e assim, numa inumerável sucessão de divisão de ideias, forma-se em minha mente um rio delas, a correr desesperado, almejando alcançar as horas passadas. Mas o que realmente sucede é que me perco da ideia principal, da ideia primeira que deu origem a todas as outras. Resultado: a página em branco. Quando pior, um texto vazio.
Diário outonal (2)
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- Escrevi para a Brotéria sobre Mindhunter e State of the Union.
- Ontem ouvi na televisão uma advogada de família a explicar que a prática
de abandono ...
