– Fogo! – gritou o capitão. Nada aconteceu. Hesitante, eu apenas tremia e me esforçava ao máximo para manter o rifle apontado para aquele homem magro e barbudo do outro lado. Tanto quanto eu, ele tremia. – Fogo! – gritou novamente o capitão. Desta vez, o tom de euforia em sua voz havia sido substituído por um tom grave de raiva. E, mesmo assim, hesitei novamente. O homem estremecia mais e mais. Seus olhos estavam vendados, aumentando, significativamente, sua confusão. Ele balbuciava algumas palavras, mas eu não entendia nenhuma delas. Penso que era alguma prece; um pedido desesperado por salvação. Observando-o, fui tomado então pela ideia de que no lugar dele, poderia ser eu ali. Esperando o disparo que tiraria minha vida. E, talvez como conseqüência das expressões de desespero que impregnavam suas palavras, eu me pus a imaginar quais pensamentos correriam em minha mente estando eu em sua condição. No entanto, resposta alguma veio. É certo que ainda formaram-se alguns pensamentos em minha mente, mas a maioria deles não possuía sentido algum; talvez o medo e a confusão, que estavam a me sufocar, os usurpara qualquer possibilidade de significado. Começava a chover, já anoitecia e, pela terceira vez, muito mais furioso, gritou o capitão: – Eu disse fogo, seu filho de uma vaca! Também, pela terceira, eu hesitei.
Um estrondo cortou o silêncio e correu por todos os lados, ecoando, contrastando com os relâmpagos que se formavam. Senti, abruptamente, uma espécie de empurrão que me levou ao chão. Um cheiro forte de pólvora fez-se presente. Olhei então para o homem e, estranhamente, ele continuava de pé. Aos poucos, uma dor profunda tomava-me. Desnorteado, eu senti aproximando-se de mim, lentamente, uma escuridão melancólica e calma. Não sei explicar como, mas ela apossou-se de meus olhos. Foi então que o brilho dos relâmpagos tomaram a forma de um clarão turvo; a impressão que eu tinha era de que alguém havia desacelerado o mundo, roubado a velocidade dos acontecimentos. Avistei, novamente, o clarear dos trovões; e, em meio a inúmeros estrondos – que eu já não conseguia distinguir se eram trovões ou disparos –, vi o homem a correr desesperado com os olhos vendados. Aos poucos, o mundo foi se apagando para mim, como um navio que vai se afastando da praia, levando consigo a turba e seus penosos adeuses. – Nada? Perguntei a mim mesmo. – Ausência. Ausência. Ouvi sussurrarem ao longe. – Ausência! Parece-me mesmo um bom sentimento para me guiar aonde quer que eu esteja indo agora.
