Calmamente, passeava ele em meio à barafunda da feira de São Borges. Desde que acordara, seu espirito estava calmo e paciente. Era como se ele houvesse, finalmente, encontrado seu sentido no mundo. Bem, ainda não se sabe ao certo a origem deste fenômeno que proporciona tão significativa mudança nos espíritos dos homens. É bastante comum ouvir-se suposições de que seja a ação de algum Deus – ou de todos eles. Justificam os místicos: Ora, o que mais poderia explicar o fato de alguns sujeitos, simplesmente, terem seus espíritos renovados? O que pode justificar, à sombra da razão, o fato de um homem ordinário assentir que as coisas, todas, tenham assumido novos significados e manifestações? Como pode o mesmo mundo sujo e vil para o qual ele dera boa noite antes de dormir, que julgara completamente perdido, simplesmente, ter sido restaurado?
– Não é o mundo que muda, mas o valor dado às coisas. Comentava um anjo – que era azul e baforava a fumaça de um charuto de barro. Eles nunca o ouviram. Daí o motivo de os cientistas serem tão céticos à tal explicação. Bem, ignorando as contradições que rondam tal realidade, o fato é que: Seu espirito, até então revoltoso, havia sido apaziguado. E nada parecia ser capaz de mudar isso. Nem mesmo as mais histéricas exclamações das crianças que vendiam frutas na feira, tão desafinadas quanto às cordas do violão de um bêbado que cantarolava em troca de algumas moedas ou mesmo de doses de água-ardente. Da mesma calmaria e paciência não partilhava uma velha rechonchuda e colorada – colorada não por ser comunista; pelo contrário, a pobre, meu Deus, achava que o comunismo era obra do Diabo (algo que é, evidentemente, uma afronta com o pobre anjo derrocado). Seu rubor, na verdade, era consequência do calor infernal que fazia e da ira que a tomava – que gritava colérica: Diabos, menino! Para com estes berros em meus ouvidos! Ele apenas ria-se com a situação da pobre mulher.
– Não é o mundo que muda, mas o valor dado às coisas. Comentava um anjo – que era azul e baforava a fumaça de um charuto de barro. Eles nunca o ouviram. Daí o motivo de os cientistas serem tão céticos à tal explicação. Bem, ignorando as contradições que rondam tal realidade, o fato é que: Seu espirito, até então revoltoso, havia sido apaziguado. E nada parecia ser capaz de mudar isso. Nem mesmo as mais histéricas exclamações das crianças que vendiam frutas na feira, tão desafinadas quanto às cordas do violão de um bêbado que cantarolava em troca de algumas moedas ou mesmo de doses de água-ardente. Da mesma calmaria e paciência não partilhava uma velha rechonchuda e colorada – colorada não por ser comunista; pelo contrário, a pobre, meu Deus, achava que o comunismo era obra do Diabo (algo que é, evidentemente, uma afronta com o pobre anjo derrocado). Seu rubor, na verdade, era consequência do calor infernal que fazia e da ira que a tomava – que gritava colérica: Diabos, menino! Para com estes berros em meus ouvidos! Ele apenas ria-se com a situação da pobre mulher.
No centro da feira, onde se
condensavam os passantes, via-se todo o tipo de gente: mercadores, marceneiros,
metalúrgicos, mendigos, médicos e até marionetes. Mais um pouco à frente, algo agitava ainda mais os furiosos transeuntes. Era um briga. Um marinheiro, vindo de São Paulo, cochichou em seu ouvido: – O médico aí, pelo que me contaram, disse para o homem que o atacou que um tal "Sheikeshere" era uma das mais imponentes porcarias que havia na literatura inglesa.
O outro, que dizem ser professor de literatura, furioso, atirou no médico, acertando-o bem no meio de
seus óculos redondos, onde até então estava seu nariz, um livro. Aquele Moby Dick ali no chão. – Pelo tamanho da obra, julguem, leitores, o tamanho do estrago. Ele, que andava por ali despropositado, pôs-se a assistir ao espetáculo. Talvez seja possível dizer que à sua calmaria e paciência somou-se um sentimento de prazer proveniente da situação incomum que observava. Ora, não o culpemos. É da natureza do homem o gosto pela confusão
alheia. Mesmo as almas mais doceis e inofensivas sentem-se, vez ou outra, curiosamente atraídas pelos desafetos que incluem trocas de socos e pontapés. A confusão, que até então parecia acabada, recomeçou quando um mendigo, muito inocente e desavisado, saltou sobre o livro que ainda estava no chão – bastante ensanguentado –,
tomando-o para si e comentando com um outro mendigo que estava com ele: "Veja, teremos folhas para queimar e nos aquecer neste inverno dos infernos." O professor de literatura, ao ouvir tal disparate, parece ter sido novamente tomado pela fúria do monstro que, segundo Melville, assolava os mares; e, armando-se furiosamente de um tamborete que encontrara, pôs-se a tentar acertar alguns golpes nos pobres mendigos.
Esses, no entanto, mais ágeis que o médico, desviaram-se majestosamente dos primeiros golpes, e sem esperarem um nova investida, danaram-se por entre os
espectadores como se o professor fosse Satã e em suas mãos houvesse um tridente
dotado de falos em suas pontas. A multidão, em gritos estremecedores e eufóricos, os seguiu. O pobre médico, com o nariz bastante ensaguentado, viu aproximar-se dele um homem bastante incomum. Já meio tonto, ouviu o homem dizer-lhe pouco antes de desmaiar: – Deus mandou-me aqui buscar-te.

Parabéns pelo escrito. É uma narrativa dinâmica, que equilibra e condensa expectativas, ação e fluência - todos os predicados de um autêntico conto.
Hey, professor! Fico bastante contente que tenha gostado. Aproveito para dizer que respeito, e muito, sua opinião; principalmente suas críticas (risos). Foram elas que nortearam-me em minha busca pela boa escrita.
Forte abraço!