Gêneses

sábado, 1 de setembro de 2012 § 1

A tua ausência 
faz ruir os milagres que me protegem.
Transfigura as inocentes paisagens 
que dão 
às águas pelas quais navego
um profundidade incompreensível e tortuosa.
Faz brotar sussurros e versos antigos 
ditados por reis, lobos 
deuses. 
Faz com que os soldados, 
mutilados pela existência,
ergam-se de suas incompletudes 
em busca de abrigo em minhas
divagações. 
Faz dos sonhos que me acalentam 
uma canção que põe para dançar 
as mais furiosas tempestades  
– capazes de estremecer 
mesmo os mais íntimos dos 
mares. 
Faz a escuridão ofuscar 
e a claridade enegrecer-se. Faz 
das cidades desoladas 
um lugar seguro – e imperceptível. 
Faz inquietar-se o universo e, 
em profusão, 
fluírem as estrelas 
como um rio que segue para o mar 
buscando tirar de si 
a dor que por suas  águas 
percorre. 
...Tentando sanar, 
com a brancura do insensível sal, 
as memórias que nele mergulham 
e se abrigam 
usurpando-lhe a leveza e a sinuosidade 
que têm os rios inocentes 
– aqueles em que os homens 
melancólicos 
jamais mergulham
para nadar 
eternamente. 
Tua ausência 
ergue em mim essas coisas
invisíveis. 
Tua ausência é o motivo desses sonhos e dores 
improváveis.

Arapiraca, 28 de Agosto de 2012.

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