Lembro apenas que era uma madrugada gélida e que eu
usava um casaco velho, um gorro furado e umas botas de couro gastas que exalavam o cheiro de algo que, para mim, já não era desagradável.
Era inverno. Uma noite fria e calma.
O inverno sabia que há muito tempo eu vivia pelas ruas e que era um velho cansado e sem um lar, por isso ele, geralmente, era gentil comigo. Mas, deixemos de lado as divagações, a única coisa que importa aqui é a estória, a minha estória e preciso contá-la rapidamente... ando com a memória bastante fraca esses dias. Nas outras vezes que tentei contá-la, caprichei muito em seus detalhes e acabei ficando com uma fôrma suntuosa, mas sem as coisas que deveriam preenchê-la. Desde aquela noite, minha mente anda bagunçada. Ando vazio, tão vazio quanto minhas reservas de comida. Mas saltemos a parte auto-compaixão, as pessoas normalmente se entendiam ao ouvi-la. E não quero arriscar esquecer-me do essencial novamente. Então, adiantemos o ocorrido:
Naquela noite, cruzava eu a esquina da São Brás com a Rio Branco quando alguém sussurrara meu nome; não sei de qual direção, embora eu tenha olhado duas ou mais vezes para todas elas. Nada. Fiquei apreensivo. Quem não ficaria ao ser chamado por alguém estando completamente só numa noite silenciosa? Foi então que um pingo forte e volumoso de água despencou sobre meu gorro, e o fez com força suficiente para a que o notasse. Olhei para o céu – algo que comumente fazemos sempre algum pingo de água cai sobre nossas cabeças –, para as estrelas, e foi aí que reparei em uma delas brilhando com um clarão, tão azul, que lembrava o céu durante o dia. Pestanejei admirado e mais admirado ainda fiquei quando, pela segunda vez, alguém chamou meu nome. Não havia ninguém na rua além de mim e aquela estrela. O céu estava nublado, mas ela traspassava as nuvens e incidia seu brilho confortável e azulado sobre mim. De repente, ela pareceu aumentar infinitamente de tamanho ficando tão pesada a ponto de não poder ser mais sustentada pelo céu e despencou de lá. Eu a vi cair velozmente em minha direção. Corri desesperado para lugar algum, mas, inevitavelmente, ela despencou sobre mim. Minhas costas ainda estão bastante doloridas. E em minha cabeça, se afastar um pouco meus cabelos, verá que também há alguns cortes e machucados.
Pensando agora, nem sei ao certo se aquilo era realmente uma estrela. Sei que as estrelas têm mesmo esse hábito de despencar dos céus de vez em quando, mas nunca ouvi dizer que elas o fazem chamando o nome das pessoas antes de caírem em cima delas.
O despencar daquela estrela é uma das poucas coisas que me lembro daquele dia.
Lembro – creio que lembro – que quando fui atingido por ela, uma escuridão entristecedora tomou conta de meus olhos.
A noite, que já estava silenciosa, pareceu ter sido completamente silenciada. Eu, por algum tempo, julguei ter ficado surdo, mas então comecei a ouvir meu próprio coração bater. Grande foi meu desespero quando, depois de um ou dois minutos, nem meu coração eu conseguia ouvir mais; era como se ele houvesse parado. Aquela escuridão era tão forte que doía na vista, ofuscava. De repente, como que em um passe de mágica, tudo se clareou novamente. E eu que julgara estar em pé, na verdade, estava deitado em uma viela com o clarão do dia em machucando meus olhos.
As pessoas passavam, olhavam para mim e seguiam em frente. Despreocupadas.
...Aquela estrela levou embora alguma coisa de mim... Minha amargura... ou me passado, talvez. Há dois dias ando sorrindo sem motivos; pessoas com roupas engraçadas passam por mim e sorriem. ...Ou fora as minhas memórias? Sim, as memórias, certamente; desde aquele dia, as únicas coisas que lembro são o meu nome e minha data de nascimento. Mas não tenho certeza.
