Percebendo que não há muita coisa de Jack Spicer transcrita para a nossa encantadora língua, nem sequer uma meia-duzia de poemas traduzidos por algum leitor/tradutor descompromissado, decidi tentar traduzir – apesar do risco de meu inglês, vez ou outra, causar-me grande constrangimento, e de estar bastante atarefado em função de minha ânsia por formar-me médico – ao menos algumas de suas cartas "enviadas" ao poeta espanhol Federico García Lorca (leia-se fragmentos de "After Lorca"). Meu interesse nessas supostas "correspondências", volta-se, principalmente, para o assunto debatido entre ambos: a busca por um poema ideal. Um poema que ultrapassasse as limitações da linguagem e fosse inteligível não somente para um leitor da língua em que ele estivesse escrito, mas, também, para qualquer leitor capaz de compreender a linguagem da própria poesia. Uma poesia cujo sentido saltasse sobre o leitor se auto-revelando, dependendo da linguagem, apenas, como uma ferramenta material para manifestá-la.
Second Letter to Federico Garcia Lorca
Dear Lorca,
When I translate one of your poems and I come across words I do not understand, I always guess at their meanings. I am inevitably right. A really perfect poem (no one yet has written one) could be perfectly translated by a person who did not know one word of the language it was written in. A really perfect poem has an infinitely small vocabulary.
It is very difficult. We want to transfer the immediate object, the immediate emotion to the poem – and yet the immediate always has hundreds of its own words clinging to it, short-leved and tenacious as barnacles. And it is wrong to scrape them off and substitute others. A poet is a time mechanic not an embalmer. The words around the immediate shrivel and decay like flesh around the body. No mummy-sheet of tradition can be used to stop the process. Objects, words must be led across time not preserved against it.
I yell "Shit" down a cliff at the ocean. Even in my lifetime the immediacy of that word will fad. It will be dead as "Alas." But if I put the real cliff and the real ocean into the poem, the word "Shit" will ride along with them, travel the time-machine until cliffs and oceans disappear.
Most of my friends like words too well. They set them under the blinding light of the poem and try to extract every possible connotation from each of them, every temporary pun, every direct or indirect connection – as if a word could become an object by mere addition of consequences. Others pick up words from the streets, from their bars, from their offices and display them proudly in their poems as if they were shouting, "See what I have collected from the American language. Look at my butterflies, my stamps, my old shoes!" What does one do with all this crap?
Words are what sticks to the real. We use them to push the real, to drag the real into the poem. They are what we hold on with, nothing else. They are as valuable in themselves as rope with nothing to be tied to.
I repeat – the perfect poem has an infinitely small vocabulary.
Love,
Jack.
Segunda Carta a Federico Garcia Lorca
Querido Lorca,
Quando eu traduzia um de seus poemas e me deparava com palavras que eu não entendia, eu sempre supunha seus significados. Estou convencido de que um poema realmente perfeito (ninguém jamais conseguiu escrever um) poderia ser traduzido por alguém que nem sequer sabe uma palavra do idioma em que ele está escrito. O poema realmente perfeito possui uma pequena infinidade de vocabulários.
E isso é muito difícil. Nós geralmente queremos transferir o objeto iminente, a emoção iminente para o poema – e a iminência sempre possuiu milhares de outras palavras agregadas a ela. De curta duração e tenazes como percevejos. E é um erro deixá-las de fora e substituí-las por outras. O poeta é um mecânico do tempo, não um embalsamador. As palavras ao redor da iminência murcham e decaem como carne ao redor de um corpo. Nenhum conhecimento de mumificação será eficiente em evitar esse processo. As palavras têm de ser conduzidas através dos tempos e não protegidas dele.
Eu gritei: “Merda!”, em um penhasco. Durante meu tempo de vida a urgência daquela palavra irá continuar. Futuramente estarei tão morto quanto “Alás”. Mas se eu conseguir por o real penhasco e o real oceano dentro do poema, a palavra “Merda” continuará com eles, viajando através da máquina do tempo até que o penhasco e o oceano desapareçam.
A maioria de meus amigos gostam bastante das palavras. Eles as posicionam sob as luz ofuscante do poema e tentam extrair-lhes cada uma de suas possíveis conotações, cada um dos trocadilhos temporários, cada uma das diretas ou indiretas conexões – como se um uma palavra pudesse transformar-se em um objeto por mera adição de consequências. Outros pegam as palavras das ruas, de seus bares, de seus trabalhos e as exibem orgulhosamente em seus poemas, como se estivessem gritando: “Veja o que eu coletei da linguagem americana. Repare em minhas borboletas, meus selos e meus sapatos velhos!” O que alguém faria com toda essa porcaria?
As palavras são o meio de ligação com a realidade. Nós as utilizamos para pressionar a realidade, arrastá-la para dentro do poema. Usamos as palavras para amarrar a poesia à realidade, nada mais. Quando isoladas umas das outras, as palavras têm tanto valor quanto uma corda sem ter o que amarrar.
Eu repito – o poema perfeito possui uma pequena infinidade de vocabulários.
Com amor,
Jack.
