De um diário imaginário de Abílio Brito
16 de Abril de 1978
Hoje estou me sentindo uma cor clara e leve, só minha.
Finalmente guardei-me dentro de mim,
tornei-me meu próprio passante.
Logo irei a L’Archer
ver inspiradoras estátuas de pedra,
sentir o cheiro das águas do rio Selga
e beijar as nuvens no céu chuvoso de Saint Pierre.
10 de Abril de 1978
Ontem eu estava sentindo-me um arco íris distorcido,
estava perdido e desperdiçado,
tentando tornar-me meu passante.
Desejando ir a L’Archer,
ser enterrado aos pés de uma macieira
ou cremado e jogado sobre as margens do rio Selga
flutuando sobre o ar até minha terra natal.
9 de Abril de 1978
Anteontem, eu viajei até o norte de L’Archer,
mas durante um tempo fingi não estar lá;
o peso de meus sonhos ainda estava sobre minhas costas.
Não achava graça nas esfinges de Saint Pierre
nem nos olhos chorosos e rasos de Saint Mary,
eu estava com sono, eu estava perdido dentro de mim mesmo,
dentro de minhas próprias cinzas, e haviam muitas cinzas.
E cinzas são tristes e tornam-se memórias rapidamente;
estou com o peso de algumas em meu coração.
Não é peso de amor, não é peso de tristeza
– é apenas vazio.
E nessas épocas temo dormir, sempre sonho com coisas bonitas
e acordo-me procurando por algumas,
mas não existem para além de lá.
Ainda hoje eu não dormi de verdade,
estou procurando evitar encontros dolorosos
8 de Janeiro de 1978
Semana passada estava em L’Archer,
não havia nada de interessante lá.
Só esfinges de pedra
e um cemitério cheio de estátuas com faces tristes.
Como se morrer fosse uma coisa triste,
como se a morte não fosse o mais onírico dos sonhos.
Logo irei a Saint Pierre em L’Archer,
Dormir sobre os braços da musa de Boa Vista.
Arapiraca, 9 de Setembro de 1980.
Diário outonal (2)
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